“O sussurro que não pedia permissão” Um conto ritual em dois capítulos
“O sussurro
que não pedia permissão” Um conto ritual em dois capítulos
Capítulo I: Quando o silêncio começou a falar
Não foi um trovão.
Não foi um sonho.
Foi enquanto lavava uma xícara, como fazia todas as noites, que o silêncio começou a falar.
A água morna escorria entre seus dedos, e a cerâmica branca parecia mais brilhante do que de costume. Foi então que sentiu: um sussurro. Não tinha palavras, nem tom, nem urgência. Mas estava ali. Como se o ar dissesse algo sem dizer nada.
Ele parou. Olhou para a xícara. Virou-a. Nada.
Mas o sussurro continuava.
Tentou ignorar. Pensou que era cansaço, ou alguma ideia solta. Riu de si mesmo. “Estou ouvindo coisas”, murmurou. Mas o sussurro não se ofendeu. Não foi embora. Apenas esperou.
Naquela noite, ao se deitar, voltou a senti-lo. Não era uma voz. Era uma certeza sem forma.
Não dizia o que fazer. Não pedia nada. Apenas estava.
No dia seguinte, tudo parecia igual. Mas ele não era.
A xícara, ao segurá-la, parecia mais leve.
O caminho até o trabalho, mais longo.
As palavras dos outros, mais distantes.
E o sussurro… mais claro.
Não era uma ordem.
Não era um sinal.
Era uma verdade que não pedia permissão.
Capítulo II: Caminhar sem garantias
Decidiu seguir.
Não sabia como, nem para onde. Mas algo dentro dele já havia dito “sim”.
Não renunciou à sua vida. Apenas começou a caminhar diferente.
Olhava mais devagar. Escutava mais fundo.
E a cada dia, o sussurro se tornava companhia.
No parque, encontrou uma pedra em forma de coração.
Não a procurava. Não precisava dela. Mas guardou.
Uma criança sorriu para ele sem motivo.
Uma canção desconhecida o fez chorar.
Não entendia nada. Mas tudo fazia sentido.
O sussurro não dizia o que fazer.
Apenas lembrava quem ele era.
Uma tarde, enquanto caminhava sem destino, parou.
O vento acariciou seu rosto.
A pedra brilhou no bolso.
E o sussurro… virou silêncio.
Mas não era ausência.
Era integração.
Já não precisava ouvi-lo.
Porque agora, caminhava com ele.
Pergunta ritual: E se o sussurro não fosse uma mensagem… mas a tua forma de lembrar quem és?
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