A Casa que Sonhava Voltar a Ser Floresta
A Casa que Sonhava Voltar a Ser Floresta
Um conto em cinco capítulos desde o coração do Portal do Sol
Capítulo 1: O sussurro do beiral
Havia uma casa à beira do esquecimento.
Não estava totalmente abandonada, mas tampouco habitada.
Suas paredes, cobertas de líquens e musgo, pareciam lembrar um tempo em que vozes humanas ainda ecoavam entre seus muros.
Mas agora, o único visitante regular era o vento.
Um dia, o vento trouxe algo diferente.
Não era uma rajada qualquer, mas um sussurro.
Vinha da floresta.
E dizia:
—Volta.
A casa, que não tinha ouvidos, escutou.
Sentiu uma de suas telhas desprender-se suavemente, como quem tira um velho chapéu.
Uma raiz do monte vizinho esticou-se até tocar seu alicerce.
Uma trepadeira, tímida mas decidida, começou a subir pela janela quebrada.
A casa não resistiu.
Lembrou.
Lembrou que antes de ser casa, foi árvore.
E antes de ser árvore, foi semente.
E antes de ser semente, foi silêncio.
Naquela noite, sob a lua cheia, a casa sonhou pela primeira vez em décadas.
Sonhou que suas paredes se abriam como asas.
Que seu teto se desfazia em folhas.
Que sua porta se tornava um tronco oco onde os pássaros faziam ninho.
Ao despertar, não soube se havia sonhado…
ou se estava simplesmente voltando a ser o que sempre foi.
🌲 Capítulo 2: O visitante que falava com as árvores
Numa manhã, chegou um homem.
Não trazia ferramentas nem intenções.
Apenas um caderno, um olhar atento e uma calma que parecia ter nascido da própria floresta.
Sentou-se em frente à casa e não disse nada.
Apenas escutou.
Durante horas.
A casa, a princípio, se sentiu desconfortável.
Não estava acostumada a ser observada sem ser medida.
Mas o homem não avaliava.
Contemplava.
Ao entardecer, levantou-se, caminhou até uma árvore próxima e encostou a testa no tronco.
Sussurrou algo.
A casa não entendeu as palavras, mas sentiu que a árvore sim.
Naquela noite, o visitante dormiu sob o beiral caído.
E a casa, pela primeira vez em muito tempo, se sentiu habitada… não por dentro, mas por fora.
Como se alguém a reconhecesse não pelo que oferecia, mas pelo que era.
🪞 Capítulo 3: O quarto dos ecos
O visitante voltou no dia seguinte.
E no seguinte.
E no seguinte.
Um dia, cruzou o umbral.
Não pediu permissão, mas também não precisava.
A casa deixou-o entrar.
Lá dentro, o pó dançava como se celebrasse sua chegada.
O visitante caminhou até um quarto sem janelas, onde o eco ainda vivia.
Ali, colocou uma pedra, uma pena e uma folha seca.
Depois sentou-se no chão e fechou os olhos.
O eco, curioso, aproximou-se.
E ouviu algo que não esperava: silêncio.
Mas não era um silêncio vazio.
Era um silêncio pleno.
Como o das raízes sob a terra.
Como o de uma semente antes de germinar.
O visitante abriu os olhos e disse:
—Aqui também há floresta.
E o eco, pela primeira vez, não repetiu.
Guardou a frase como um segredo sagrado.
🕯️ Capítulo 4: A cerimônia do barro e da luz
Com o passar dos dias, o visitante começou a limpar.
Não para restaurar, mas para revelar.
Removia o que sobrava, não o que envelhecia.
Recolheu barro do riacho próximo e misturou com cinzas.
Com essa mistura, desenhou símbolos nas paredes: espirais, galhos, olhos cerrados.
Cada símbolo era uma oferenda.
Cada traço, uma prece.
Numa noite, acendeu velas em cada canto.
A casa, iluminada por dentro, parecia respirar.
As sombras dançavam como se lembrassem antigos rituais.
O visitante sentou-se no centro e disse em voz baixa:
—Não vim para te habitar. Vim para te acompanhar no teu retorno.
E a casa, comovida, deixou cair uma lágrima de ferrugem por uma de suas dobradiças.
🌳 Capítulo 5: Quando a casa desapareceu
Numa manhã, o visitante já não estava.
Restava apenas seu caderno, aberto sobre uma pedra.
Nele, uma única frase:
"Toda casa é uma floresta que aprendeu a esperar."
Com o tempo, as paredes se desfizeram em casca.
O teto tornou-se galhos.
As janelas, ninhos.
O chão, húmus fértil.
Ninguém mais falava “a casa”.
Apenas da clareira nova que havia nascido na floresta.
Uma clareira onde os pássaros cantavam diferente.
Onde o vento parecia lembrar.
Onde, se alguém permanecesse em silêncio...
poderia ouvir um sussurro que dizia:
—Obrigado por voltar.
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