"Fogo de chuva e memória: um conto para abraçar a alma"

 



Fogo de Chuva e Memória

Capítulo I: O Fogão e a Pergunta

A chuva caía como um sussurro antigo sobre o telhado do Portal do Sol. Lá dentro, o fogão crepitava com paciência, e a avó mexia uma panela que perfumava a casa com lembranças. O neto, com mãos pequenas e olhos grandes, ajeitava os gravetos como se cada faísca fosse uma estrela querendo despertar.

—Vovó, como vocês faziam quando não havia telefone? —perguntou, enquanto Pety se espreguiçava no tapete, testemunha silenciosa do ritual.

A avó sorriu, e seus olhos viajaram longe.

—Não tínhamos telefone, nem luz elétrica. Para avisar algo, caminhávamos até a casa do vizinho. As cartas demoravam dias, mas cada palavra era um abraço. Cozinhávamos com lenha, e a noite se iluminava com lamparinas de querosene. O silêncio era companheiro, não castigo.

O menino franziu a testa, fascinado.

—E como sabiam o que acontecia no mundo?

—Ouvíamos rádio, quando funcionava. Mas mais do que notícias, o que importava era o canto dos pássaros, o cumprimento do vizinho, o pão compartilhado.

A chuva batia na janela como se quisesse entrar. O fogo ardia. A história apenas começava.


 Fogo de Chuva e Memória

Capítulo II: O Tempo e a Imaginação

A avó sentou-se ao lado do menino e abriu uma caixa de madeira. Dentro, uma receita escrita à mão, uma foto em sépia e uma pequena boneca de pano.

—E como se divertiam sem televisão nem internet?

—Com o que havia. Galhos, pedras, sombras. Inventávamos mundos. Cada árvore era um castelo, cada poça uma galáxia. O tempo não se media em relógios digitais, mas na fumaça do fogo e no canto dos grilos.

O menino acariciou a boneca com reverência.

—E vocês eram felizes?

—Sim. Não tínhamos muito, mas tínhamos tudo. A família, a comunidade, a imaginação. O pão tinha gosto de lar, e cada tarde era uma aventura.

Pety ronronou. A chuva continuava a cair, mas agora parecia cantar.

O menino pegou seu caderno e escreveu:

"Hoje entendi que a vida sem coisas era mais rica em abraços. Esta história agora é minha. E um dia, será dos meus filhos."

A avó o abraçou. O fogo ardia. A memória também.

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