O Banco das Memórias
O Banco das Memórias
Na praça central do Portal do Sol, bem onde o jacarandá deixa cair suas flores como bênçãos violetas, há um banco de madeira gasta. Não é um banco qualquer. É um altar de encontros, de silêncios compartilhados e de palavras que se transformam em ritual.
Todas as tardes, sem falta, Dona Clara e Dona Ema sentam-se ali. Não combinam. Não se ligam. Simplesmente chegam. Como se o banco as chamasse.
—Hoje estão mais apressados do que nunca —diz Clara, olhando os jovens que cruzam a praça com fones de ouvido e mochilas cheias de futuro.
—E mais sozinhos também —responde Ema, com voz suave—. Antes se caminhava em grupo, cantava-se, compartilhavam-se segredos.
Ambas riem. Não com uma nostalgia amarga, mas com ternura. Porque sabem que a juventude é um rio que nunca para, e elas aprenderam a nadar em suas lembranças.
Falam dos filhos, dos netos, dos domingos de missa e macarronada caseira. Das cartas perfumadas que esperavam com o coração em suspense. Dos bailes no clube, onde um toque de mãos podia significar um mês de suspiros.
—Lembra quando estreávamos sapatos para ir à praça? Mesmo que fossem herdados...
—E quando os namorados pediam permissão para sentar no banco! Agora nem cumprimentam.
Uma tarde, uma jovem para diante delas. Tem o rosto cansado e os olhos cheios de perguntas.
—Posso sentar um pouquinho?
—Claro, querida. Este banco é para quem quiser escutar com o coração.
A jovem não fala. Apenas escuta. E nesse silêncio, as senhoras lhe oferecem histórias como sementes.
—Eu tinha uma avó que me ensinou a bordar os nomes de quem eu amava.
—E eu aprendi que a amizade é como este banco: firme, gasto, mas sempre disposto a sustentar.
O sol se põe. As sombras se alongam. A jovem se despede com um sorriso diferente, como se algo tivesse acendido em seu peito.
No dia seguinte, o banco está vazio. Mas alguém deixou um bilhete escrito à mão:
"Obrigada por me ensinar que a amizade também pode ser um ritual de resistência amorosa."
E abaixo, uma flor de jacarandá.
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