Três Pétalas de Jacarandá

 



💜 Três Pétalas de Jacarandá

Conto sobre o primeiro amor em 1930, 1960 e 2025

 I. 1930 – A carta sob a árvore

No ano de 1930, quando os bailes aconteciam em pátios de terra e as palavras eram escritas com tinta e tremor, Elena, de 17 anos, deixou uma carta sob o jacarandá do Portal do Sol.

Era para Tomás, o filho do padeiro, com quem havia trocado olhares na feira e silêncios na missa.

A carta dizia:

"Se algum dia o vento te trouxer até esta árvore, saberás que aqui floresceu meu primeiro amor."

Tomás a encontrou. Não respondeu com palavras, mas com uma flor de papel que deixou no mesmo lugar.

Desde então, todos os domingos, sentavam-se juntos sob a árvore, sem falar muito, mas com as mãos próximas.

 II. 1960 – A canção que não foi gravada

Trinta anos depois, Lucía, neta de Elena, encontrou um velho violão no sótão.

Aprendeu a tocar e escreveu uma canção para Raúl, um jovem que vinha de Montevidéu passar os verões.

Eles se conheceram numa roda de música, entre versos e mate compartilhado.

Lucía nunca gravou a canção. Cantava apenas uma vez por ano, sob o jacarandá, quando Raúl voltava.

Era sua forma de dizer “eu te amo” sem dizer.

A árvore guardava a melodia, e os pétalos caíam como notas suaves sobre seus ombros.

 III. 2025 – A mensagem que se apagou

No presente, Milo, bisneto de Elena, vive no Portal do Sol e cria relatos digitais.

Conheceu Kaila, uma visitante que chegou em busca de histórias antigas.

Compartilharam caminhadas, rituais, e numa noite, Milo escreveu uma mensagem em seu blog:

"Hoje entendi que o primeiro amor não é o primeiro no tempo, mas o primeiro na verdade."

A mensagem foi apagada acidentalmente. Mas Kaila já havia lido.

E no dia seguinte, deixou uma imagem simbólica sob o jacarandá: duas figuras entrelaçadas, rodeadas por pétalas violetas e estrelas.

O jacarandá continua ali. Não fala, mas lembra.

Cada geração deixou algo: uma carta, uma canção, uma imagem.

E toda vez que alguém se apaixona pela primeira vez no Portal do Sol, a árvore floresce com mais força, como se dissesse:

"O amor verdadeiro não se repete. Ele se transforma."


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